Me emociono a cada fim de um duelo eleitoral. Coisa de quem gosta de viver, estudar e sentir os desígnios da política. Mas para além da emoção, fico com a cabeça fervilhando para refletir sobre a chamada “verdade eleitoral”, na tentativa de decifrar a cabeça do eleitor e do candidato. Não foi diferente no encerramento da totalização dos votos para o governo de Pernambuco. Quando os números confirmaram a reeleição de Raquel Lyra no primeiro turno, a pergunta que me perseguiu durante toda a campanha voltou com força: como dois nomes tão parecidos chegaram a destinos tão distintos? A resposta, como costuma acontecer, está menos no carisma e mais no método.
Basta olhar o currículo. Raquel Lyra foi deputada estadual, vencedora de duas eleições consecutivas para a prefeitura de Caruaru, e agora consagra-se governadora reeleita. João Campos foi deputado federal e prefeito do Recife também por dois mandatos consecutivos. Os dois saíram dos executivos municipais com avaliação alta e sucessor no lugar. Raquel elegeu quem quis em Caruaru. João deixou o vice de sua inteira confiança, até então um ilustre desconhecido, hoje sentado na cadeira de prefeito do Recife. E, até agora, nem um nem outro jamais havia perdido uma eleição.
A semelhança vai além. O pai de João, Eduardo Campos, teve como vice o pai de Raquel, João Lyra Neto, que assumiu o governo quando Eduardo partiu para a disputa presidencial. Foi Eduardo quem escolheu Paulo Câmara para sucedê-lo, e João Lyra não foi à reeleição. O grupo que João herdou, o legado de seu pai e de seu bisavô Miguel Arraes, teve, no passado, a eficiência de emplacar outros dois nomes até então pouco conhecidos do grande eleitorado, Geraldo Júlio e o próprio Paulo Câmara, hoje ambos com alta rejeição, por gestões frágeis no imaginário popular, mas também por fatos políticos que colocaram em xeque a idoneidade de suas administrações.
Se os currículos se espelham, os estilos se opõem. Raquel parece imprimir uma prudência quase excessiva. Fatia a gestão em etapas. Primeiro os ajustes internos, por vezes traumáticos. Depois a estrutura e os recursos. Só então as entregas. Para quem olha de fora, parece lenta. João mostra o oposto. Impulsivo, obcecado por números que tragam resultado visual constante, chega com a equipe predefinida e vai logo mapear quem é aliado e quem é adversário, sem tanta cerimônia.
O modo como cada um conduziu a disputa revelou os estilos. Raquel viu João forte na capital e seguiu o caminho inverso da lógica tradicional da eleição para governador em Pernambuco: consolidou sua força no interior, por vezes partindo de pequenos municípios, e se inseriu em cidades da região metropolitana do Recife, territórios que costumam decidir a disputa. João concentrou forças no Recife, parecendo acreditar que sua gestão seria propulsora dos apoios que chegariam depois, e que a força das redes sociais expandiria o que fosse necessário.
As pesquisas da pré-campanha davam a João vantagem larga. A diferença foi encolhendo na medida em que a gestão de Raquel imprimia ritmo, e o ritmo dela, no fim, era o do método. O placar ficou em 53% a 44%.
Por isso chamo a derrota de pedagógica. João aprendeu, do jeito mais caro, que linhagem não substitui tempo. Aprendeu que o eleitor pernambucano premia método mais do que premia pressa. E aprendeu que a aura de inevitabilidade é a armadilha mais perigosa de uma campanha. Mas sai da disputa com o que nenhum dos seus antecessores precisou colecionar: a experiência da derrota. É jovem, deixou a prefeitura do Recife bem avaliada, tem capital político e, agora, tem o diploma que faltava no currículo.
Pernambuco, no fundo, saiu ganhando. Reelegeu uma governadora que governa por método e manteve na arena um adversário que aprendeu a lição. A derrota que ensina é a que pode preparar a próxima vitória.
Por Felipe Ferreira Lima
Advogado, Cientista Político e Professor de Direito Constitucional e Eleitoral
Fonte: Jornal do Commercio – 08/10/2026
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