Estamos vivendo um momento de realinhamento nas pautas ideológicas no Brasil. Uma reconfiguração discursiva começa a se desenhar no cenário político nacional, com impactos significativos no Congresso e no comportamento das lideranças partidárias. O caso mais emblemático talvez seja o de Eduardo Bolsonaro, que surpreendeu ao apoiar, nos Estados Unidos, medidas que prejudicam diretamente o Brasil — como as taxações impostas por Donald Trump sobre produtos brasileiros. O gesto, em nome de uma defesa política de seu pai, contraria a histórica defesa do nacionalismo econômico tão cara à direita.
Enquanto isso, o presidente Lula se reposiciona em um campo discursivo que, até pouco tempo atrás, era hegemonicamente da direita: o da soberania nacional e do patriotismo. Ao se colocar como defensor dos interesses do Brasil frente à ameaça de taxações estrangeiras, Lula amplia sua base de apoio, não apenas no espectro progressista, mas também entre eleitores que prezam por valores nacionais. Essa apropriação narrativa fortalece sua imagem como estadista e pode alterar o equilíbrio político no médio prazo.
No Congresso, a chamada “PEC da Blindagem” — que busca restringir ações do STF contra parlamentares — passou a ser defendida em bloco por setores da direita, sob o argumento de frear supostos excessos do Judiciário. Em contrapartida, a esquerda se aproveita da situação para se colocar como defensora da responsabilização de autoridades e do combate à impunidade, invertendo completamente os papéis de fiscalização e transparência que, outrora, foram marcas do discurso conservador ou da oposição governamental. Esse deslocamento discursivo abre espaço para que a esquerda avance em pautas sociais com menor resistência.
Neste último domingo (21/09), as manifestações contra a “PEC da Blindagem” e contra a “PEC da Anistia” repercutiram no cenário político, a esquerda conseguiu mobilizar um bom número de apoiadores em todo o país, tanto presencialmente quanto on-line, provocando mais efeitos que os protestos do 7 de setembro que a direita organizou.
Caso a direita não realize uma análise crítica de suas contradições recentes — especialmente ao abrir mão de bandeiras históricas como o combate à corrupção e a defesa intransigente do Brasil — corre o risco de perder não apenas eleitores, mas também sua identidade ideológica. O discurso da blindagem, da proteção a lideranças envolvidas em processos judiciais, e o apoio a medidas que fragilizam a economia nacional podem se tornar um fardo. Em um país marcado por volatilidade política e por uma população cada vez mais atenta, o abandono de princípios pode custar caro.
Tentou se explicar, mas não convenceu
O vídeo do prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos, tentando se justificar sobre a votação em massa de sua bancada na Câmara Federal a favor da PEC da Blindagem serviu para abrandar sua claque, mas não convenceu a opinião pública. Dias antes, seu irmão e deputado federal Pedro Campos (PSB) também tentou justificar se arrependendo do famigerado voto. Em ambos os casos, o pragmatismo de trocar o voto a favor da “Blindagem” em troca da “Não Anistia”, colocou o PSB em maus lençóis.
Subserviência aos poderosos
Outro aditivo para as novas narrativas adotadas está o recente episódio do vídeo do relator da “PEC da Anisitia”, o deputado federal Paulinho da Força (Solidariedade-SP), junto com o deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG) e o ex-presidente Michel Temer (MDB-SP), defendendo a mudança do nome do projeto de emenda constitucional de Anistia para “PEC da Dosimetria”, explicando através de uma jogada jurídica politiqueira que o intuito não é absolver, mas abrandar a pena dos envolvidos na acusação de Golpe de Estado. Segundo fontes do jornal “Metrópoles”, a relatoria da PEC tem sido costurada com Temer (o mesmo que costurou o impeachment da Dilma), o presidente Lula e o STF. Diante dos fatos podemos concluir que o sistema político tenta transmitir uma imagem de que está tudo correndo bem, mas os valores democráticos e jurídicos são colocados em cheque, mostrando que o Congresso continua subserviente aos poderosos de Brasília.
A construção da pré-candidatura de Tarcísio
Embora o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), negue sua pré-candidatura à presidência, tendo que fazer movimentos à direita para garantir uma sobrevida política a Bolsonaro, há um movimento dos partidos de centro (PSD, PP, PSDB, UNIÃO, MDB e Republicanos) para garantir um cenário propício para que Tarcísio seja candidato. Temer e Kassab são os grandes articuladores dessa costura. A costura não envolve apenas o cenário político do executivo federal, mas garantias jurídicas de não ter fogo amigo e a construção de uma base sólida de apoio, que envolve mercado financeiro, governadores, senadores e deputados.
Por Hugo Sousa
Jornalista e Publicitário, idealizador do portal Novo Contexto e analista político.
