A violência contra a mulher e o feminicídio constituem chagas sociais que desafiam não apenas o sistema de justiça, mas a própria consciência coletiva. Embora o ordenamento jurídico brasileiro disponha de instrumentos robustos, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, a persistência de índices alarmantes evidencia que a repressão penal, por si só, não basta. O enfrentamento efetivo dessa realidade exige transformação cultural — e tal transformação começa, necessariamente, pela educação.
Quando se fala em educação como ferramenta de combate à violência, não se trata apenas da escola enquanto instituição formal, mas de um processo contínuo e multifacetado que atravessa diferentes níveis e espaços sociais.
Na primeira infância, o ambiente familiar desempenha papel estruturante. É nesse período que se consolidam referências afetivas, percepções sobre papéis sociais e noções iniciais de respeito e convivência. A naturalização de comportamentos autoritários, a diferenciação rígida entre “papéis de menino” e “papéis de menina” e a tolerância a atitudes de controle ou desvalorização feminina plantam sementes que, no futuro, podem germinar em relações abusivas. Por outro lado, lares que cultivam diálogo, igualdade e empatia contribuem decisivamente para a formação de indivíduos conscientes e respeitosos.
No âmbito da educação básica, a escola assume protagonismo inegável. Mais do que transmitir conteúdos curriculares, ela forma cidadãos. Inserir, de maneira responsável e adequada à faixa etária, debates sobre direitos humanos, equidade de gênero, respeito às diferenças e resolução pacífica de conflitos é investir na prevenção estrutural da violência. Não se trata de ideologização, mas de compromisso com valores constitucionais como dignidade da pessoa humana e igualdade.
Durante a adolescência, fase marcada pela construção da identidade e pelo início das relações afetivas, a educação assume contornos ainda mais estratégicos. É nesse período que muitos jovens vivenciam seus primeiros vínculos amorosos, e, infelizmente, também podem surgir sinais de relacionamentos abusivos. Trabalhar educação emocional, limites, consentimento e autonomia é essencial para que meninos e meninas reconheçam comportamentos tóxicos e saibam estabelecer relações baseadas no respeito mútuo.
No ensino superior e na formação profissional, a responsabilidade permanece. Universidades e instituições técnicas devem promover ambientes seguros, políticas claras contra assédio e iniciativas de conscientização permanentes. Além disso, cursos como Direito, Medicina, Psicologia, Serviço Social e Segurança Pública precisam incorporar, de forma sólida, conteúdos voltados ao atendimento humanizado das vítimas e à compreensão das dinâmicas da violência de gênero. Profissionais bem preparados fazem diferença concreta na rede de proteção.
A educação também se estende aos espaços comunitários, religiosos, empresariais e institucionais. Programas de capacitação, campanhas informativas e debates públicos ampliam a consciência coletiva e fortalecem a cultura de intolerância à violência. A mídia local, inclusive, exerce papel pedagógico relevante ao abordar o tema com responsabilidade, evitando sensacionalismo e contribuindo para a informação qualificada.
É preciso compreender que o feminicídio não é um ato isolado que surge de forma abrupta; ele costuma ser o desfecho extremo de um ciclo progressivo de violência. Romper esse ciclo exige intervenção precoce, e a intervenção mais eficaz é aquela que forma mentalidades antes que preconceitos e práticas abusivas se consolidem.
À medida que se aproxima o Dia Internacional da Mulher, a reflexão que se impõe vai além das homenagens simbólicas. É tempo de reafirmar o compromisso coletivo com políticas públicas educacionais permanentes, capazes de transformar padrões culturais arraigados. Combater a violência contra a mulher é tarefa de toda a sociedade, mas sua raiz está naquilo que ensinamos — ou deixamos de ensinar — às novas gerações.
Investir em educação é investir na prevenção. É construir, de forma sólida e duradoura, uma sociedade em que mulheres não precisem temer pela própria vida. A mudança estrutural que almejamos começa nas salas de aula, nos lares, nas universidades e nos espaços de convivência social. Somente por meio de uma educação integral, ética e humanizadora será possível romper o ciclo da violência e afirmar, na prática, o valor inegociável da dignidade feminina.
Nayara Sousa
Fundadora e Diretora do Centro de Ensino do Agreste. Pedagoga. Mestranda em Educação – Orlando/Florida-EUA. Especialista em Gestão de Pessoas. MBA em Gestão Empresarial. Enfermeira. Especialista em Saúde Pública e Vigilância Sanitária, Saúde da Mulher.
