Entre Pausas e Recomeços

Quando um ano se encerra e outro se inicia, temos o hábito de renovar esperanças, renovar os caminhos, renovar a fé.

Outro dia, rememorando uns versos escritos pela minha mãe, que transforma em poesia o tecer dos fios da vida, refleti sobre nós, mulheres, tecelãs do próprio destino, entre o silêncio da pausa e a dança do recomeço. Quantos desafios!

Dizem que a vida é um fio esticado, mas pra nós, a vida é, a bem na verdade, um bordado de muitos avessos. É feita de linhas que se partem, de nós que se apertam e de linhas e cores que precisam ser trocadas no meio do caminho. Portanto, falar de pausas e recomeços é falar intensamente da alma feminina: há tempos de ser rio que corre, mas há tempos em que somos a pedra que espera, nos refazendo para que, amanhã, possamos ser montanhas.

O “tornar-se mulher”, que nos traz Simone de Beauvoir, não é um destino onde se chega e se repousa, é uma travessia em caminhos que nem sempre fomos nós que escolhemos. Pois, desde os primeiros passos, a sociedade nos entrega um mapa de degraus íngremes e, por vezes, cruéis. Buscamos a cidadania plena com o peso histórico de séculos nas costas, marcado por uma violência que silencia e invisibiliza a mulher. Muitas vezes, a pausa nos é imposta pelo cansaço do corpo ou pelo despedaçar dos sentimentos e, então, esse é o momento em que o mundo nos obriga a parar, não por descanso, mas por pura sobrevivência.

No entanto, temos que resistir e lutar pelo direito de parar, pois, nessas pausas, quando encontramos acolhimento, o parar deixa de ser um vazio e vira um abrigo. É no silêncio da interrupção que reconhecemos as marcas das violências sofridas, não como condenações, mas como mapas de lugares para onde não aceitaremos mais voltar. E, assim, percebemos que o recomeçar deixa de ser apenas um verbo, vira movimento. É o instante em que a mulher decide que sua história não termina no ponto final que o outro escreveu, e se torna a protagonista de sua própria vida.

Mas é da natureza do ser humano viver em comunidade. E, numa vida de interações, a autoaceitação, o autoconhecimento e o respeito a si mesma são importantíssimos, mas não bastam. Pois, quando encontramos pontos de apoio, rede de conexões e um abraço que acolhe, o fardo fica mais leve. Quando vivemos o empoderar coletivo, nascendo do olhar de reconhecimento entre as mulheres, como, por exemplo, naquele “eu vejo você”, no reconhecimento da nossa dor na outra, da nossa vitória na outra, entendemos que a sororidade é o fio que reúne e amarra os retalhos soltos, e nosso tear vira uma ciranda de mãos dadas.

Nossos recomeços são mais bonitos ao saber que, quando levantarmos a cabeça, estaremos ladeadas da nossa própria dignidade e de todas aquelas que caminharam ou se inspiraram em nossos passos. Somos o eco de muitas vozes e o início de tantas outras, um ciclo que pode e precisa sempre ser ampliado. E, com o coração tranquilo, podemos afirmar que pausamos por necessidades, mas, principalmente, recomeçamos por um direito ancestral de sermos, enfim, inteiras.

Por Luana Marabuco
Advogada; Pós-Graduada em Direito Público e Gestão de Pessoas; e Secretária da Mulher de Caruaru-PE.

Deixe seu comentário