Silêncio, Opinião e Conivência: até onde vai a Neutralidade?

Nos últimos dias, compartilhei nas minhas redes sociais uma reflexão a partir de episódios recentes de racismo que vieram à tona. Como costuma acontecer quando temas sensíveis são colocados em debate, surgiram também reações diversas. Entre elas, uma frase que merece atenção: “ninguém é obrigado a opinar sobre tudo”. E, de fato, essa afirmação é verdadeira. Não somos obrigados a nos manifestar sobre todos os acontecimentos do mundo até porque nem sempre temos informação suficiente, preparo emocional ou até mesmo espaço interno para opinar, e sim! o silêncio, em muitos contextos, é legítimo.

Mas a pergunta que fica e que precisa ser feita com honestidade é: quando o silêncio deixa de ser apenas uma escolha individual e passa a se tornar conivência?

Racismo não é um tema neutro, não é uma questão de gosto pessoal, nem um debate abstrato. Trata-se de uma estrutura de violência que atravessa histórias, corpos e oportunidades, o racismo ele fere, exclui, limita e, muitas vezes, mata não só de forma explícita, mas também silenciosa, cotidiana e normalizada.

Quando falamos de injustiças estruturais, o silêncio não se dá no vazio. Ele acontece dentro de um contexto social em que algumas vozes sempre foram caladas e outras sempre tiveram o privilégio de não precisar se posicionar. Por isso, em determinadas situações, não opinar também comunica algo.

Não se trata de sair opinando sobre tudo, nem de transformar cada pessoa em comentarista compulsório da realidade. Trata-se de reconhecer que há temas que dizem respeito à dignidade humana. E diante deles, a neutralidade é, muitas vezes, confortável apenas para quem não sente os efeitos diretos da violência.

Vamos à prática? Para deixar mais claro para você que está aqui refletindo junto comigo:

Negro de alma branca.” “Seu cabelo é exótico.” “Racismo é coisa dos Estados Unidos, aqui somos miscigenados.” “Isso é coisa de preto.” “Cabelo ruim.” “Não sou racista, mas…” eu já ouvi muitas dessas frases, já presenciei comentários ditos como “brincadeira”, já vi o desconforto sendo ignorado e o preconceito sendo disfarçado de opinião e é justamente aí que eu chamo à reflexão.

Ficar em silêncio diante do racismo não nos torna automaticamente racistas, mas nos convida a pensar com honestidade:

– O que o meu silêncio está protegendo?

– Estou evitando conflito ou evitando responsabilidade?

– Se fosse comigo, eu também preferiria que todos permanecessem calados?

– Quando escolho não me posicionar, estou ajudando a transformar ou a manter a realidade como ela está?

Talvez o ponto central não seja a obrigação de opinar, mas a responsabilidade de não se omitir quando o que está em jogo é a humanidade do outro. Às vezes, posicionar-se não é falar alto, nem saber tudo é simplesmente, não fingir que não viu.

Em um novo contexto social, ético e humano, o silêncio também precisa ser revisitado. Porque há momentos em que ele deixa de ser neutro e passa a pesar.

Por Lorena Benitez
Paraguaia, Bacharel em Direito, Pós graduada em Gestão Social: Políticas Públicas, Redes e Defesa de Direitos, pós graduanda em Diversidade e Inclusão nas Organizações, membro da Comissão de Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB Caruaru, Fundadora do Instituto Benitez Jones, Presidente do Rotary Club de Caruaru Sul e Coordenadora do Orgulho Down de Caruaru.

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