As urnas fecharam no último domingo com uma mensagem que merece ser observada para além da disputa pelo Governo de Pernambuco e dos grandes embates nacionais. Na eleição para a Assembleia Legislativa, o pernambucano promoveu uma mudança considerável na composição da Casa Joaquim Nabuco.
Dos 49 deputados estaduais eleitos para a legislatura que se inicia em 2027, 20 não integravam o grupo dos 49 parlamentares escolhidos pelo eleitor pernambucano nas eleições de 2022. Outros 29 conseguiram renovar seus mandatos.
Em números, isso representa uma renovação de aproximadamente 40,8% das cadeiras da Assembleia. É um percentual expressivo.
Mas a primeira cautela necessária é compreender o que significa essa renovação. Troca de nomes não significa, necessariamente, estreia na política. E nem todo parlamentar que chega à Alepe pela nova composição pode ser considerado propriamente um “novato”.
Entre os eleitos estão políticos com longa trajetória pública, ex-parlamentares e nomes que já ocuparam outros espaços relevantes da política pernambucana. Há também quem tenha chegado à Assembleia durante a legislatura como suplente e agora conquistado diretamente nas urnas o mandato para os próximos quatro anos.
Portanto, talvez seja mais adequado falar em renovação da composição parlamentar do que simplesmente em renovação política.
Ainda assim, vinte cadeiras mudando de mãos entre duas eleições é um dado que não pode ser desprezado.
A nova composição reúne Gilson Machado Filho, André Ferreira, Lara Santana, Maria Arraes, Batista Cabral, Janjão, Bruno Marques, Jobson Almeida, João de Nadegi, Professora Ivete Caetano, Romerinho Jatobá, Cayo Albino, Fábio Aragão, Vini Castello, Andréa Medeiros, Emerson Freitas, Breno Araújo, Roberta Arraes, Zé de Irmã Teca e Sebastião Oliveira entre os nomes que não integraram o grupo eleito para a Alepe em 2022.
O conjunto é heterogêneo. Há candidaturas vinculadas a grupos políticos tradicionais, nomes com forte presença municipal, lideranças que construíram capital eleitoral próprio, políticos com experiência parlamentar em outras Casas e candidaturas que conseguiram converter presença regional ou exposição pública em votos.
Essa diversidade ajuda a compreender outra característica da eleição proporcional: uma eleição para deputado estadual não é apenas uma disputa individual por votos.
O resultado depende simultaneamente da força eleitoral do candidato, da nominata partidária, do desempenho global do partido ou federação, do quociente eleitoral e das regras de distribuição das cadeiras. Por isso, candidatos com votações expressivas podem ficar de fora enquanto outros, com votação nominal inferior, conseguem alcançar uma cadeira.
É também por essa razão que analisar apenas quem ganhou e quem perdeu individualmente fornece uma fotografia incompleta da eleição.
O desempenho dos partidos talvez conte uma história ainda mais interessante.
A nova Alepe nasce bastante fragmentada, sem que uma única força política concentre parcela suficiente das cadeiras para governar isoladamente a dinâmica parlamentar. Isso significa que, independentemente do resultado da eleição para o Executivo, a construção de maioria continuará exigindo diálogo, composição partidária e articulação política dentro da Assembleia. E esse aspecto será particularmente importante a partir de 2027.
Deputado estadual não exerce apenas a função de apresentar projetos de lei. A Assembleia possui atribuições constitucionais de fiscalização do Poder Executivo, apreciação orçamentária, controle político, instalação de comissões, análise de matérias de iniciativa governamental e discussão das principais políticas públicas estaduais.
A composição da Casa, portanto, interfere diretamente na governabilidade.
Existe ainda outro fenômeno interessante no resultado de 2026: a força das bases municipais e regionais.
A eleição demonstra mais uma vez que Pernambuco não pode ser politicamente compreendido apenas a partir da Região Metropolitana do Recife. Agreste, Zona da Mata e Sertão continuam capazes de produzir votações importantes e de levar à Assembleia representantes profundamente vinculados às suas bases territoriais.
Prefeitos, ex-prefeitos, vereadores, grupos municipais e lideranças regionais permanecem peças fundamentais na construção de uma candidatura proporcional competitiva.
Isso fica ainda mais evidente em eleições gerais. Enquanto a disputa majoritária tende a nacionalizar ou estadualizar o debate, a eleição para deputado continua extremamente dependente das redes locais de confiança política.
Mas talvez o aspecto mais interessante seja olhar para o outro lado dessa renovação.
Se vinte nomes que não integravam o grupo eleito em 2022 conquistaram cadeiras agora, isso significa que vinte posições daquela composição necessariamente deixaram de existir na mesma configuração.
Alguns parlamentares optaram por disputar outros cargos. Outros não concorreram. Houve alterações durante a própria legislatura. E houve também aqueles que buscaram permanecer na Assembleia, mas não conseguiram renovar seus mandatos.
Esse último grupo é especialmente relevante para compreender o recado das urnas.
Mandato parlamentar oferece exposição, estrutura política, presença institucional e quatro anos para construção de bases eleitorais. Nada disso, entretanto, transforma a reeleição em consequência automática.
A urna continua sendo um teste periódico.
A política brasileira possui forte tendência à continuidade de mandatos legislativos, razão pela qual uma renovação próxima de 41% chama atenção. Significa que uma parcela relevante do eleitorado decidiu mudar sua representação ou que a reorganização das forças partidárias foi suficiente para alterar substancialmente a composição da Casa.
Há, contudo, uma pergunta que somente os próximos quatro anos poderão responder: a renovação dos nomes produzirá também renovação na forma de exercer o mandato?
Esse é o ponto essencial.
Democracias não precisam necessariamente substituir seus representantes a cada eleição. Experiência parlamentar também possui valor institucional. Conhecimento do processo legislativo, domínio do orçamento público, capacidade de fiscalização e memória institucional são ativos importantes para qualquer Parlamento.
Renovação, portanto, não deve ser tratada automaticamente como sinônimo de melhoria, assim como continuidade não deve ser confundida com ausência de mudança.
O que importa é a qualidade da representação produzida pelas urnas.
A partir de fevereiro de 2027, os novos e os reeleitos estarão submetidos ao mesmo desafio: demonstrar que os votos recebidos podem ser convertidos em atuação parlamentar efetiva.
Para os vinte nomes que representam a mudança em relação à eleição de 2022, haverá naturalmente maior curiosidade sobre como ocuparão esse espaço. Para os 29 que renovaram seus mandatos, haverá uma cobrança diferente: justificar novamente a confiança depositada pelo eleitorado. E talvez essa seja uma das virtudes mais importantes do sistema democrático.
A eleição não concede propriedade sobre o mandato. Concede um período determinado de representação.
A cada quatro anos, a cadeira volta simbolicamente para as mãos do eleitor.
Em 2026, Pernambuco decidiu manter 29 dos representantes escolhidos quatro anos antes e modificar outros 20.
É uma mudança significativa, mas ainda não sabemos se será apenas uma renovação de cadeiras ou se produzirá também uma renovação de práticas, agendas e prioridades.
Essa resposta não saiu das urnas no domingo
Começará a ser escrita quando a nova Assembleia Legislativa de Pernambuco tomar posse em 2027.
Por Brenno Ribas
Advogado Eleitoral e Professor Universitário
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