Todos os dias, a violência contra a mulher é um tema que perpassa minhas atividades diárias, mesmo quando as pessoas não sabem qual a minha atuação profissional. Faz parte do dia a dia de todas nós perceber ou passar por situações de desrespeito ou invisibilização nas atividades mais simples do cotidiano.
Desde que iniciei a escrita direcionada às mulheres por aqui, é uma temática que já foi abordada parcialmente e que está envolvida em tantas outras de forma subliminar. As violências contra a mulher, em suas mais variadas formas, sejam elas físicas, psicológicas, sexuais, patrimoniais e/ou morais, como previstas na Lei Maria da Penha, são um dos problemas mais urgentes da nossa sociedade. Essa lei, que é uma das mais avançadas na proteção à mulher de todo o mundo, ainda encontra descrença e desafios a sua aplicabilidade na nossa sociedade. E o mais cruel é que, na maioria das vezes, a violência acontece dentro de casa. Só que, ao invés de acolher, muitas pessoas ainda julgam e não veem os desafios diários que essas mulheres enfrentam para sair dessa situação.
Um desses principais obstáculos é o próprio medo: de realizar a denúncia, de ser descredibilizada, de sofrer retaliação, dos amigos e da família. Sem rede de apoio é muito mais difícil superar. Em se tratando de violência psicológica, que é a mais comum e por onde se iniciam normalmente as demais violências, muitas vezes é invisível para quem está de fora e faz grandes estragos na autoestima e na autoconfiança da mulher. Muitas destas mulheres começam a acreditar que não são capazes de ter autonomia financeira, de cuidar dos filhos sozinha e que vão se tornar reféns de relacionamentos abusivos. O julgamento e a falta de empatia levam muitas mulheres a se sentirem isoladas e sozinhas na sua dor.
O autor da violência contra a mulher não tem um estereótipo específico e a mulher não se apaixona “por agressor”; normalmente, no início do relacionamento esse companheiro se mostra leal, apaixonado e um bom companheiro. Depois, acaba se tornando o pai dos filhos, o amigo e companheiro de todas as horas. Mas são comportamentos sutis, como provocar o afastamento das pessoas que amam você, ciúmes, vigiar com quem você fala, dentre outros comportamentos que devem servir de alerta desde o início, como um termômetro para que a mulher possa sair desse relacionamento o quanto antes, para não ficar presa no ciclo da violência, que oscila em momentos de tensão-agressão, perdão e lua-de-mel, repetindo-se inúmeras vezes.
A legislação vem avançando e os mecanismos de proteção de toda a rede de enfrentamento à violência contra a mulher também, mas a mudança em nossa sociedade tem que ser mais profunda: cultural e estrutural. A educação é o caminho dessa transformação. Aliados a isso, a cada dia, mais mulheres encontram a coragem e o apoio para denunciar e buscar ajuda. E, além do trabalho da rede de enfrentamento à violência, que é essencial nesse processo, oferecendo apoio jurídico, psicológico e social, acolhendo as vítimas e mostrando a elas que não estão sozinhas, você pode ser parte do fim destas violências não julgando e estendendo a mão às mulheres vítimas.
O sonho de construir uma sociedade mais justa e igualitária, onde as mulheres tenham seus direitos respeitados e possam viver plenamente, livres de qualquer tipo de violência, ainda está muitos anos longe de ser concretizados, mas, para isso deixar de ser utopia e acontecer, a conscientização e a união de todos são fundamentais.
Se você está passando por alguma situação de violência, procure os canais de informação e denúncia como o 180, 190 e em Caruaru (81) 983844310. Você não está sozinha!
Por Luana Marabuco
Advogada; Pós-Graduada em Direito Público e Gestão de Pessoas; e Secretária da Mulher de Caruaru-PE.
