Setembro Amarelo e autismo adulto: há sofrimentos que ninguém consegue enxergar

Quando se fala em autismo, muita gente ainda pensa imediatamente em crianças. Parece que o autista cresce e chega à adolescência ou à vida adulta, simplesmente deixa de ser autista. Não deixa e, muitas vezes, precisa de mais suporte do que quando era criança, principalmente quando falamos de autistas nível 1 de suporte. Com a adolescência, novos desafios e com um nível maior de dificuldade se agregam à nossa rotina. Nem se fala quando se chega à fase adulta, onde somos cobrados a ter uma profissão, um título universitário, a constituir uma família a ser bem-sucedido e ter status social. Se para uma pessoa típica isso já é difícil, imagine para uma pessoa autista.

Tenho 43 anos, sou advogado há mais de 17 anos e sou autista com TDAH e AHSD (Altas Habilidades/superdotação. Tenho uma vida profissional ativa, trabalho, assumo responsabilidades, convivo com pessoas, participo de instituições e enfrento os desafios comuns a qualquer adulto. Mas existem desafios que nem sempre são percebidos por quem está ao meu redor e, muito menos por aqueles que me acompanham apenas pelas redes sociais, a final, como já amplamente difundido, só postamos nas redes aquilo que queremos. Acredito que o Setembro Amarelo seja também um momento importante para falarmos sobre isso.

O autismo não é uma doença. Também não significa à primeira vista incapacidade. Falo à primeira vista porque à depender do nível de suporte ou das comorbidades que vem juntas com o autismo, pode sim haver incapacidade. Somos pessoas diferentes entre nós, com habilidades, limitações, sensibilidades e necessidades de suporte igualmente diferentes.

No meu caso, uma das questões que mais pesam no cotidiano é a sobrecarga com barulho, excesso de estímulos, odores, muitas pessoas falando, compromissos sucessivos, pressão profissional e situações que geram ansiedade podem cobrar um preço alto. Imagine que a advocacia requer um mix disso tudo. E mais, não me vejo exercendo outra profissão senão a advocacia, profissão que amo e exerço com garra e afinco em prol da defesa dos meus clientes.

Em contrapartida, pago um preço muito alto para performar no mesmo padrão que os demais profissionais da minha área de atuação e esse preço não é apenas emocional. Convivo com dores de cabeça constantes e dores pelo corpo, febre, baixa imunidade, sonolência excessiva e falta de vontade de sair de casa. Em determinados momentos, depois de um dia de muita sobrecarga sensorial, mental e emocional, é como se o corpo também pedisse para parar. Quem olha de fora nem sempre percebe e, talvez, essa seja uma das coisas mais difíceis de explicar sobre o autismo na vida adulta: muitas vezes aprendemos a continuar funcionando mesmo quando não estamos bem.

Você atende um cliente, participa de uma reunião, de uma audiência, resolve um problema, diligencia documentos junto a diversos órgãos administrativos, responde mensagens, conversa normalmente e cumpre suas obrigações. Para quem está de fora olhando, está tudo certo. Mas nem sempre está! Contudo, desde jovem, aprendi a ser forte e resiliente, pois desde pequeno somos treinados em vários ambientes que frequentamos de que temos que ser persistentes, fortes, que não podemos desistir, pois falhar é sinal de fraqueza. É assim na escola, no trabalho, na igreja, na faculdade, no trabalho, etc.

Muitos adultos autistas passaram décadas sem sequer saber que eram autistas. Durante esse tempo, aprenderam a suportar desconfortos, esconder dificuldades e tentar se comportar da maneira que a sociedade esperava, sendo funcional, social, agradável, provedor para não desagradar os que nos rodeiam, mas, ao final do dia, quando de fato podemos tirar a armadura, o peso recai sobre nossos ombros e custa caro. Com o passar dos anos, a saúde fica mais frágil, a sensibilidade aumenta e o cansaço se intensifica.

Alguns aprenderam tão bem a parecer que estavam bem que ninguém percebe quando não estão e isso é extremamente cansativo.

Existe também um preconceito que precisa ser enfrentado: a ideia de que uma pessoa que estudou, trabalha, constituiu família, tornou-se profissional e conquistou seu espaço não pode ser autista. Pode. Eu sou uma dessas pessoas. Minha trajetória profissional não apaga meu autismo. Assim como ser autista nunca me impediu de construir minha história.

Mas reconhecer minhas limitações e compreender melhor a forma como meu corpo e minha mente reagem ao mundo também fez parte desse processo.

Por isso, quando falamos em Setembro Amarelo, precisamos lembrar que saúde mental não se resume àquilo que conseguimos enxergar. Uma pessoa pode estar sorrindo, trabalhando e cumprindo suas responsabilidades e, ainda assim, estar enfrentando uma batalha silenciosa. Com adultos autistas, isso merece uma atenção especial.

Inclusão não é apenas permitir que a pessoa autista entre em determinado espaço. É fazer com que ela possa permanecer nele com dignidade, respeito e, quando necessário, adaptações. É compreender que uma pausa pode ser necessária; que determinados estímulos podem ser insuportáveis; que o silêncio pode ser uma necessidade, e não falta de educação e que dizer “hoje eu não estou bem” deveria ser recebido com acolhimento, e não com julgamento.

Depois de mais de 17 anos na advocacia e, principalmente, a partir da minha própria experiência como pessoa autista, passei a enxergar muitas dessas questões de outra forma: Por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa e por trás de muitas pessoas aparentemente fortes existem dificuldades que quase ninguém conhece.

Neste Setembro Amarelo, minha mensagem é simples: nem todo sofrimento faz barulho. Observe mais e julgue menos. Escute verdadeiramente, demonstre apreço honrado e sincero e, quando alguém tiver coragem de dizer que não está bem, não minimize.

Às vezes, ser ouvido e acolhido sem julgamentos pode ser o primeiro passo para buscar ajuda.

Stanley Rupert Jones
Advogado há mais de 17 anos e pessoa autista com TDAH e AHSD. Presidente da Comissão de Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB Caruaru, Vice-presidente do Comud, Professor Universitário, palestrante e ativista da causa autista e direitos PCD.

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