Artigo – Depois das “Taxas das Blusinhas”, o Polo de Confecções do Agreste de Pernambuco precisa escolher: Reagir ou Reiventar – por Kilma Galindo

A extinção da taxa das blusinhas não criou o problema do Polo de Confecções do Agreste de Pernambuco. Ela iluminou, com crueldade de refletor, vulnerabilidades que a pesquisa acadêmica já mapeava há mais de uma década e que o ciclo de crescimento anterior permitiu adiar. Este texto não é sobre política tributária. É sobre o que precisa ser feito a partir de agora.

A competitividade do polo ainda está fundada nos mesmos pilares da sua origem: mão de obra de baixo custo e tecnologia amplamente acessível, não em ativos intangíveis, não em identidade de marca, não em algo estruturalmente difícil de replicar. Quase metade das empresas nunca adotou qualquer recurso de promoção de marca, e a decisão de compra da maioria dos compradores se regula exclusivamente pelo preço. O polo cresceu em volume e faturamento no mesmo período em que não ampliou em identidade. Crescimento sem ativo intangível é crescimento sobre areia.

As empresas asiáticas não competem por preço: elas competem por velocidade, algoritmo e volume de escolha, lançando até dez mil produtos por dia. Esse é um campo quase que impossível para o polo regional vencer por imitação. A resposta está exatamente no que elas jamais oferecerão: origem, história, pertencimento e o valor de comprar de quem se conhece pelo nome. Essa é a única vantagem competitiva sustentável disponível, e a maioria das empresas do polo ainda não aprendeu a transformá-la em receita.

Quatro pontos precisam ser enfrentados sem eufemismo: copiar tendência não é criar coleção; marca sem registro no INPI é sinal gráfico, não ativo empresarial; ausência de controle de qualidade é risco de reputação em tempo real; e a informalidade que viabilizou a origem do polo é hoje o principal obstáculo à sua evolução competitiva. A superação da concorrência internacional pressupõe formalização, acesso a crédito, produtividade e gestão, condições que a informalidade estrutural simplesmente não oferece.

O polo tem o que nenhuma plataforma chinesa tem: produto que chega em dias, trabalhadores identificados pelo nome e uma história de reinvenção que atravessa gerações. A pergunta que permanece sem resposta definitiva é se o polo será capaz de evoluir para fatores especializados, design, marca, inovação, internacionalização, antes que a concorrência externa torne o modelo atual inviável. A extinção da taxa das blusinhas acelerou esse prazo. Valor, na moda, só vira receita quando é comunicado, posicionado e protegido.

Kilma Galindo
Advogada, sócia fundadora do escritório Moura & Galindo, Mestre em Gestão Empresarial, Especialista em Direito da Moda, Direito do Trabalho e Psicologia Organizacional. Consultora Técnica em Negócios da Moda pelo Município de Caruaru. Coautora de obras sobre Fashion Law. @kilmagalindo

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