Estou vivendo uma fase extremamente desafiadora. Exatamente quando a carreira profissional está em alta e o reconhecimento do trabalho realizado vem trazendo bons frutos para a vida: eu decidi recomeçar, pausar. Uma escolha pela maternidade, novamente.
E 11 anos depois: outro filho. Eu não sou a mesma mulher de 2014 ( quando fui mãe pela primeira vez). E os filhos vem diferentes, cada um deles com suas características e fases. Nem melhor, nem pior, apenas etapas únicas e especiais. Amor de sobra, cuidado e dedicação também, mas passar por essa fase novamente e com todos os desafios que a enfrentamos ao nos doar por completo, por escolha e curtindo cada etapa, me fez refletir sobre as diversas mulheres e mães, que no dia-a-dia não tem a liberdade de escolher ou viver quem elas são.
No mês onde temos a segunda melhor data pro comércio, onde as redes sociais se enchem de mensagens e homenagens, as escolas fazem inúmeras apresentações, onde os corações ficam mais emotivos que o habitual, falar da maternidade de forma real, às vezes foge desses padrões de amor incondicional, pode chocar quem não vive ou viveu os desafios da maternidade.
Mês das mães, de amor, de cuidado, de saudade, mas tem aquela pergunta que incomoda: Quem cuida de quem cuida?
As mulheres são a maioria da população CUIDADORA, dos filhos, dos idosos e de outros. Mas quem cuida delas? Quem se preocupa com as suas necessidades? Com o seu bem-estar? Com a sua saúde mental?
O trabalho não remunerado do cuidado representa uma sobrecarga ainda maior na nossa sociedade, onde as mulheres tem o ônus de sair pra trabalhar fora de casa e acumular o trabalho doméstico, a preocupação com os filhos, com toda a família e a casa. Tendo, então a 3a. e 4a. jornada de trabalho. Portanto a romantização dessa data, bem como da própria maternidade acaba por também ser uma justificativa do abandono social, da ausência de rede de apoio e do isolamento materno.
E o que podemos extrair dessa análise sobre a sociedade hoje e a maternidade romantizada, é que não há o que se falar de instinto materno como força soberana, por que talvez essa expressão seja deveras utilizada para uma repetição da estrutura criada para que as mulheres fossem ensinadas a ser exclusivamente “do lar” e os homens a ser abundantemente “do mundo”. Uma estrutura que repele a independência dos seres humanos por razão do gênero, assim o instinto seria nada mais que a atenção, o cuidado, a observação. O tempo dedicado àquele ser que precisa de auxílio e acolhimento para sobreviver, para viver.
Aí que chegamos ao ponto chave, pai não é rede de apoio, é co-responsável. O lar e a família fazem parte do mundo de todos.
E com mais mulheres em espaços de poder, dialogando e trazendo essas inquietações, da necessidade de divisão sexual do trabalho do cuidado, dos filhos, da casa: é que observamos o sacudir das estruturas basilares da nossa sociedade. Talvez muitos ainda não estejam prontos para dialogar sobre essa realidade e modificar comportamentos. Assim seguimos com mais mães solo, filhos órfãos de pais vivos ou mães que carregam todo o peso do cuidar.
Há ainda o desafio de estar no mercado de trabalho, que não foi e está longe de ser um local preparado para as mulheres, e isso não é um discurso sobre meritocracia, é sobre o ambiente hostil e muitas vezes não acolhedor quanto às necessidades inerentes aos papéis de cada ser, independente das qualificações técnicas. Sobre isso discorreremos em outro momento. Mas existem sim diferenças biológicas e as funções inerentes a produção de leite e alterações no corpo da mulher ao gestar, ter um filho, viver o puerpério e amamentar, porém quando há a consciência no dar as mãos e dividir as tarefas, o fardo fica mais leve, o ombro pesa menos e a saúde mental fica preservada.
Fora tudo isso ainda tem as pressões sociais, as cobranças, os pitacos, as comparações e as exigências. E o que pude apreender nesses anos de vivência, estudo e pesquisa sobre os direitos das mulheres é que somos múltiplas e únicas, cada uma de nós vivencia a experiência de uma forma diferente, nos conectando no que nos aproxima, mas em contraponto temos em nós o destaque das nossas escolhas e individualidades. Cada maternidade é única, cada mulher é uma.
Não estou aqui dizendo o que é ou o que deve ser, somente no meu papel de trazer pontos para reflexão e quem sabe auxiliar a desenvolver uma sociedade com mais equidade e justiça social, começando pelo trabalho mais sublime do mundo, o ser mãe.
Por Luana Marabuco
Advogada; Pós-Graduada em Direito Público e Gestão de Pessoas; e Secretária da Mulher de Caruaru-PE.
