Em pesquisa que desenvolvi e apresentei na obra Estudos sobre Fashion Law, sobre Mão de Obra e Desenvolvimento Econômico: Desafios e Perspectivas no Polo de Confecções do Agreste de Pernambuco, da qual sou coautora, parto de uma constatação incômoda: o Polo de Confecções do Agreste cresce em faturamento, em número de empresas formais e em inserção nacional, mas convive com um déficit estrutural de trabalhadores qualificados que compromete justamente o ganho de produtividade capaz de sustentar esse crescimento.
A esse quadro soma-se uma variável ainda tratada como secundária: o envelhecimento acelerado do Nordeste. Para um polo que depende historicamente de mão de obra jovem, predominantemente feminina e informal, empregada em facções e oficinas domiciliares, o alerta é claro: não bastará formar trabalhadores, será preciso formá-los para substituir uma base que envelhece mais rápido do que o restante do país. À escassez de hoje, motivada por descompasso de formação, pode somar-se, em uma década, a escassez por redução absoluta da população economicamente ativa.
Experiências internacionais indicam caminhos que precisamos observar, como o caso de países como Portugal, Alemanha, Japão e Bangladesh. Entre as medidas adotadas nesses países, destacam-se: converter a qualificação em vantagem competitiva; vincular o aprendiz a contrato remunerado desde o primeiro dia, retendo talento melhor do que cursos avulsos; tratar a automação como política pública de compensação do envelhecimento, e não como escolha isolada de cada empresa; e fazer da formalização condição de acesso a mercado e a benefícios.
A automação, tratada com desconfiança em debates trabalhistas, precisa ser relida à luz de um polo que não preenche as vagas que oferta, mesmo diante das medidas público privadas já realizadas por algumas instituições: a tecnologia não compete com o trabalhador, compensa a sua ausência. O equilíbrio está em direcioná-la às funções de maior escassez, liberando o profissional qualificado para atividades de maior valor. A isso devem somar-se a qualificação contínua de trabalhadores de todas as faixas etárias e a formalização das relações de trabalho.
O futuro do Polo de Confecções do Agreste depende de um tripé: Qualificação técnica contínua, estendida também aos trabalhadores acima dos 40 anos; Investimento planejado em tecnologia, dirigido às funções de maior escassez; e Exame sistemático de modelos de negócios públicos privados, como ocorre em outros países que oferecem soluções já testadas para o mesmo dilema, pois resta demonstrado que nossa população envelhece mais depressa do que a região se prepara para substitui-la. Qualificar e investir em tecnologia, usada com critério, são medidas, neste cenário, aliadas nessa transição.
Por Kilma Galindo
Especialista em Direito da Moda e Consultora em Negócios da Moda
