Levantamento com 801 eleitores revela forte lembrança do voto para presidente e governador, mas amplo distanciamento em relação ao Legislativo
Uma pesquisa que acaba de ser divulgada pelo Núcleo de Inteligência de Mercado do Centro Universitário Frassinetti do Recife (UniFafire) revela um paradoxo no comportamento político do eleitor da Região Metropolitana do Recife (RMR): enquanto a participação eleitoral e a lembrança do voto para cargos do Executivo são elevadas, há um profundo distanciamento em relação aos representantes do Legislativo. O estudo ouviu 801 moradores da RMR, entre os dias 17 de novembro e 4 de dezembro de 2025, em diversos espaços públicos de Boa Viagem, Cabo de Santo Agostinho, Boa Vista, Derby, Caxangá, Várzea, Encruzilhada, Graças, Aflitos, Jaqueira, Bomba do Hemetério, Peixinhos, Jardim Atlântico, entre outros. O nível de confiança é de 95% e margem de erro de 3,5 pontos percentuais.
O objetivo foi conhecer a percepção das lembranças da população sobre o processo eleitoral da última eleição majoritária para governo, câmara estadual, câmara federal, senado e presidência ocorrida em 2022, como também sua identificação política. Para os cinco cargos, a pesquisa quis identificar se o eleitor votou no primeiro turno da eleição; se lembra em quem votou; se o candidato em que votou foi eleito e se ele acompanha os projetos desse candidato escolhido durante o mandato; e se esta pessoa se candidatar novamente, se pretende votar de novo nela.
O levantamento mostra que 80,77% dos entrevistados afirmaram ter votado no primeiro turno das eleições de 2022, percentual praticamente idêntico ao índice oficial de comparecimento em Pernambuco. Para o coordenador da pesquisa, João Paulo Nogueira, essa coincidência reforça a robustez metodológica do estudo. “A sondagem conseguiu reproduzir com precisão o comportamento real do eleitorado, o que dá segurança para interpretar os demais dados”, afirma.
Apesar da alta participação, os números revelam um fenômeno que especialistas classificam como “apagão de memória legislativa”. Cerca de 64,32% dos eleitores não lembram em quem votaram para deputado estadual; 69,83% não recordam o voto para deputado federal; e 64,17% não se lembram do senador escolhido. Para o cientista político e professor de Direito Eleitoral do Centro Universitário Frassinetti do Recife (UniFafire), Felipe Ferreira Lima, o dado expõe um problema estrutural da democracia brasileira. “O eleitor participa do processo eleitoral, mas se desconecta do acompanhamento do mandato. Sem memória do voto, enfraquece-se a fiscalização e a responsabilização dos eleitos”, analisa.
O contraste aparece quando o foco se volta aos cargos do Executivo. A lembrança do voto sobe para 67,53% na eleição para governador e atinge o ápice na Presidência da República, com 88,21% dos entrevistados afirmando recordar em quem votaram no primeiro turno de 2022. Segundo Ferreira Lima, esse resultado reflete a centralidade do Executivo e a forte polarização política nacional, que mantém o debate presidencial vivo no cotidiano da população.
Outro dado relevante para o cenário eleitoral de 2026 é o comportamento da fidelidade ao voto. Entre os eleitores que lembram em quem votaram, a intenção de repetir o voto é alta no Legislativo — ultrapassando 70% tanto para deputados estaduais quanto federais. Já para o cargo de governador, o cenário é mais instável: 54,42% votariam novamente na mesma candidata, enquanto 45,58% afirmam que mudariam de escolha, indicando um eleitorado mais crítico e volátil em relação ao Executivo estadual.
A pesquisa também buscou abordar outras temáticas como a identidade político-ideológica e a questão do preconceito pela posição pela escolha dessa identidade.
Perfil ideológico – A pesquisa traça o perfil ideológico do eleitor da RMR e aponta um cenário distinto do padrão nacional. Direita (23,81%) e Esquerda (23,68%) aparecem em empate técnico, enquanto 31,08% não se identificam com nenhum rótulo ideológico. Para Felipe Ferreira Lima, o dado revela uma região que “apesar de altamente polarizada, apresenta um percentual significativo de pessoas que não se utilizam de um critério partidário ou estritamente ideológico para definir o voto, mostrando-se pragmáticas e resistentes a classificações tradicionais”, tornando a RMR um território estratégico e imprevisível nas disputas eleitorais.
Vale destacar que no mesmo período do levantamento da UniFafire, o Instituito Datafolha apresentou um estudo similar em caráter nacional, onde a pesquisa divulgada no último dia 24 de dezembro, mostra que 35% dos brasileiros se identificam como de direita e 22% como de esquerda. Outros 17% se posicionam no centro, enquanto 11% se declaram de centro-direita e 7%, de centro-esquerda. Já 8% dizem não saber ou não responder.
A análise dos dados revela que a Região Metropolitana do Recife (RMR) caminha na contramão de algumas tendências nacionais, apresentando três características principais que são: Polarização Equilibrada – enquanto no Brasil a Direita tem uma vantagem de 13 pontos percentuais sobre a Esquerda (35% x 22%), na RMR há um empate técnico absoluto (23,8% x 23,6%), mostrando que a força progressista em Pernambuco é muito superior à média nacional; Vácuo de Moderação – o eleitor da RMR evita os rótulos de “Centro”. No Brasil, o Centro e o Centro-Direita somam 28%, enquanto na região metropolitana esse grupo encolhe para apenas 11,5%. A Centro-Direita é quase inexistente no Recife (representa apenas 1,88%); Pragmatismo e Rejeição a Rótulos – o dado mais gritante é o deslocamento ideológico. Na RMR, 36,97% dos eleitores preferem não se identificar com nenhuma ideologia ou não sabem responder — um número quase 5 vezes maior que a média nacional (8%).
Discriminação pela escolha – Por fim, o levantamento acende um alerta social: 39,83% dos entrevistados afirmaram já ter sofrido discriminação por causa de sua posição política. Para o cientista político, o dado evidencia que a polarização extrapolou o campo eleitoral e passou a afetar as relações sociais. “Quando quase 40% da população sente preconceito por suas ideias políticas, há um sinal claro de erosão da tolerância democrática”, observa Felipe, concluindo que o estudo oferece um retrato detalhado do eleitor metropolitano às vésperas do ciclo eleitoral de 2026, revelando desafios centrais para partidos, candidatos e instituições: reconectar o eleitor ao Legislativo, reduzir a distância entre voto e mandato, e enfrentar os efeitos sociais da polarização política.
