Produtividade sem saúde mental é só um colapso adiado

Durante muito tempo, produtividade foi tratada como sinônimo de desempenho máximo, entrega constante e metas superadas, custe o que custar. Mas talvez a pergunta que as empresas ainda evitam seja: produtividade a qual custo?

Os números mais recentes já não permitem mais ignorar a resposta. Em 2025, o Brasil registrou mais de 472 mil afastamentos por transtornos mentais, um aumento de cerca de 68% em relação ao ano anterior.
Não estamos falando de casos isolados, estamos diante de um padrão.

E quando ampliamos o olhar, o impacto deixa de ser apenas humano e se torna econômico:
a perda global de produtividade associada à ansiedade e depressão chega a US$ 1 trilhão por ano, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde e da OIT.

Ainda assim, muitas organizações continuam operando sob uma lógica ultrapassada: quanto mais entrega, melhor ,mesmo que isso signifique sobrecarga constante. Existe um equívoco perigoso acontecendo dentro de muitos negócios: confundir alta performance com resistência ao limite.

Funcionários que nunca param, que assumem múltiplas funções e que “dão conta de tudo” costumam ser vistos como ativos valiosos. Mas, na prática, muitas vezes são sintomas de uma estrutura adoecida.

Porque produtividade real não é sobre esforço contínuo, é sobre consistência sustentável.
E quando isso não existe, o custo aparece, mesmo que não imediatamente:

Absenteísmo: afastamentos crescentes por esgotamento;
Presenteísmo: pessoas presentes, mas mentalmente indisponíveis;
Queda de qualidade: erros, retrabalho e decisões frágeis;
Turnover emocional: talentos que saem não pela empresa, mas pelo ambiente.

O presenteísmo, inclusive, já é apontado como um dos maiores vilões invisíveis, podendo gerar perdas ainda maiores que o próprio absenteísmo. Ou seja: o colaborador não precisa sair para que a empresa comece a perder. Nunca se falou tanto em performance. Nunca se produziu tanto conteúdo, relatórios, metas e indicadores.

E, ainda assim, nunca houve tantos profissionais exaustos. Esse paradoxo revela algo essencial: não é falta de esforço, é excesso sem direção saudável.

Pesquisas mostram que ambientes de trabalho positivos, que consideram o bem-estar integral, não apenas reduzem o adoecimento, mas também aumentam inovação e desempenho. Ou seja, saúde mental não é um “benefício corporativo”. É uma estratégia de negócio.

E mais: estudos indicam que cada dólar investido em saúde mental pode gerar retorno de até quatro vezes em produtividade e retenção. Empresas que ainda tratam saúde mental como pauta secundária estão, na prática, operando com um modelo de crescimento insustentável. Porque não existe escala possível onde as pessoas adoecem para sustentar o resultado.

E mais cedo ou mais tarde, essa conta chega, na cultura, nos números ou na reputação. A nova economia não será construída apenas por quem entrega mais, mas por quem consegue sustentar o desempenho ao longo do tempo.

Talvez seja hora de revisitar uma crença silenciosa que ainda guia muitas decisões: Você está construindo produtividade… ou apenas exigindo resistência?

Se você lidera um negócio, uma equipe ou até mesmo a sua própria rotina, vale observar:

Sua operação depende de pessoas no limite para funcionar?
Seus resultados são sustentáveis ou reativos?
O seu modelo de trabalho promove clareza… ou sobrecarga disfarçada de eficiência?

Porque no fim, a pergunta não é se o colapso vem. Mas quando.
E, principalmente, se ele poderia ter sido evitado.

Por Núbia Félix
Empresária pioneira no estado de PE, como Assistente Virtual; Mentora e idealizadora da Rede Nubi, de Assistentes virtuais, com prestadoras de serviços a nível nacional e presentes também na Europa; Especialista em Gestão de Processos; Professora Universitária; Especialista em Empreendedorismo e Inovação nos negócios; Coordenadora, Docente e Supervisora de Psicanalistas em formação; Fundadora do coletivo de Fomento ao Empreendedorismo Feminino “Mulheres em Foco”; Idealizadora do PodCast “Conexões Femininas”.

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