A MP nº 1.357/2026, conhecida como MP da “taxa das blusinhas”, caminha para uma semana decisiva no Congresso Nacional. O governo demonstra pressa: o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o objetivo é mobilizar a base governista para aprovar o texto durante o próximo esforço concentrado do Congresso, previsto entre 31 de agosto e 4 de setembro, enquanto o prazo oficial de deliberação da MP termina em 8 de setembro. A medida permite a redução a zero do Imposto de Importação sobre remessas internacionais de até US$ 50 nas condições estabelecidas, reacendendo uma discussão que interessa diretamente à indústria e ao varejo de moda brasileiros.
Analisar essa medida apenas sob a perspectiva de ser favorável ou contrária à tributação seria simplificar um problema muito maior. Para o Polo de Confecções do Agreste de Pernambuco, a ampliação da vantagem de preço das plataformas internacionais chega em um momento particularmente sensível. O modelo de comercialização baseado fortemente nas feiras presenciais precisa conviver com um consumidor cada vez mais digital; ao mesmo tempo, empresas da região enfrentam desafios de profissionalização, tecnologia, qualificação e disponibilidade de mão de obra. Enquanto isso, grandes plataformas internacionais operam apoiadas em escala, tecnologia, inteligência de dados, logística e uma experiência de compra concebida para o ambiente digital. A concorrência, portanto, não acontece somente entre duas peças de roupa: acontece entre modelos de negócio.
É justamente nesse ponto que considero que a discussão sobre a “taxa das blusinhas” pode representar uma janela de oportunidade para o Agreste. Em vez de concentrarmos todo o debate em como impedir a entrada do produto estrangeiro, precisamos perguntar como fazer o produto pernambucano chegar ao consumidor brasileiro com a mesma facilidade. O Polo possui algo extremamente valioso: capacidade produtiva, conhecimento acumulado, empreendedorismo, velocidade de produção e uma identidade cultural que não pode ser reproduzida por uma plataforma estrangeira. O desafio é transformar esses ativos em marcas fortes, produtos com identidade, canais digitais de venda, design, inovação, propriedade intelectual, dados e acesso a mercados nacionais e internacionais. Competir apenas por preço tende a ser uma batalha difícil; competir por preço, identidade, agilidade, qualidade e valor de marca abre outra perspectiva.
Isso exige mais do que iniciativas individuais dos confeccionistas. É necessário um projeto de transformação competitiva do Polo, articulando poder público, entidades empresariais, universidades, centros tecnológicos e empresas. Precisamos pensar em digitalização das feiras e dos negócios, marketplaces e estratégias de venda B2B e B2C, formação de mão de obra para a nova indústria da moda, automação, inteligência artificial, observatório permanente de dados do setor, fortalecimento das marcas pernambucanas e políticas de valorização da origem. Se o consumidor está deixando de depender da viagem presencial para comprar moda, o Polo também não pode depender exclusivamente de o consumidor viajar até o Agreste para vender. É o produto do Agreste que precisa chegar ao Brasil.
Por isso, independentemente do resultado da votação da MP, a “taxa das blusinhas” deveria provocar uma reflexão maior. Não podemos controlar o avanço das plataformas internacionais, mas podemos decidir como o Polo de Confecções do Agreste responderá a ele. Talvez esta seja justamente a oportunidade para iniciar uma nova fase: sair da lógica de apenas produzir muito e barato para construir um ecossistema de moda que também desenvolva tecnologia, marcas, propriedade intelectual, cultura e valor agregado. O futuro do Polo não estará somente em proteger o mercado que já conquistou, mas em usar sua força produtiva e sua identidade para conquistar mercados aos quais ainda não chegou.
Por Kilma Galindo
Especialista em Direito da Moda e Consultora em Negócios da Moda
