Para refletir e agir, mês da mulher.

Quando pensamos no mês da mulher, casualmente somos levados a lembrar de homenagens, flores e agradecimentos, mas para além das celebrações e presentes, pelos avanços conquistados, este mês carrega um peso que não podemos mais ignorar. Celebrar é justo, mas conscientizar é vital. Enquanto ocupamos novos espaços na política, na economia e em outros lugares antes negados, as sombras da violência ainda tentam ditar o ritmo da nossa caminhada.

O feminicídio tem sido o tema central das discussões, sendo urgente: as mulheres ainda lutam pelo direito de viver, não há como falar em progresso sem encarar a realidade brutal que é o feminicídio. Em 2026, os dados discutidos na recente CSW70 (70ª Sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher da ONU), em Nova York reforçaram um alerta global: a violência doméstica e o assassinato de mulheres por sua condição de gênero não são problemas privados, são crises de segurança pública e direitos humanos. É responsabilidade de todos e todas.

O enfrentamento ao feminicídio exige um engajamento que vai muito além das mulheres. É um chamado para toda a sociedade — empresas, vizinhos, famílias e sobretudo: homens. A justiça social só será plena quando o direito à vida não for uma loteria baseada no gênero. Precisamos de políticas de proteção que funcionem na prática, mas também de uma mudança cultural que desconstrua a posse e o controle. Entendendo isso, as três esferas de poder se unem em um pacto pelo fim dessa violência.

Se o feminicídio atenta contra a nossa vida, uma outra forma de violência tem chamado a atenção no centro das discussões com recorte de gênero, o Wollying (o assédio e a exclusão praticados entre mulheres no ambiente profissional e social) atenta contra a nossa capacidade de avançar. Ele foi discutido intensamente nos painéis de Nova York este ano, o wollying é uma armadilha silenciosa. Qual mulher não passou por isso em sua caminhada profissional? Ele se manifesta em micro agressões, sabotagens e no isolamento de colegas de trabalho, dentre outros aspectos sutis. O grande perigo aqui é que essa prática alimenta a engrenagem do patriarcado, tudo isso, nos faz nos desgastarmos em competições internas desnecessárias, perdendo assim, o foco na conquista de cargos de decisão e na quebra do teto de vidro, impedindo o caminhar.

Como relato pessoal, já estive em ambientes onde o cerne era a proteção dos direitos da mulher, o discurso, as ações para o público externo, mas a prática interna pairava em assédios, em vigilância constante, em ameaças veladas, em corrosão do equilíbrio psicológico das colaboradoras, entre as próprias mulheres, quem ocupava a liderança para o topo era exemplo, porém quem convivia diariamente via que era apenas casca, que a insegurança ou a maldade fazia com que a desconfiança e o ambiente adoecedor destruíssem diversas mulheres naquele lugar.

E aí temos muitas consequências devastadoras, seja a evasão de talentos, mulheres com grande capacidade abandonando as carreiras por falta de apoio, o Burnout e adoecimento, com desgaste da saúde mental e ainda criando uma barreira real para o alcance da igualdade.

Essa escalada por justiça social é um esforço coletivo. No Mês da Mulher, e em todo o resto do ano, o convite existe para uma reflexão profunda: como estamos protegendo as mulheres ao nosso lado? Seja combatendo a violência física extrema ou as agressões psicológicas sutis do dia a dia, nosso desafio é criar um ecossistema onde a ascensão de uma seja o trampolim para a próxima.

Essa justiça social não é apenas o que está ou pode vir em legislação e sim sobre a construção de um ambiente onde ser mulher não signifique viver em estado de alerta, seja em casa, na rua ou no ambiente de trabalho.

Por Luana Marabuco
Advogada; Pós-Graduada em Direito Público e Gestão de Pessoas; e Secretária da Mulher de Caruaru-PE.

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