Opinião – O Peso dos limites Institucionais – por Oscar Mariano

A rejeição do nome de Messias, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, ultrapassa a dimensão de um episódio político comum. Trata-se, ao mesmo tempo, de um marco raro na democracia recente e de um recado duro, direto e institucionalmente significativo ao Palácio do Planalto.

Historicamente, indicações ao STF seguem um rito previsível no Congresso, ainda que cercadas por críticas. Quando esse fluxo é interrompido, rompe-se um acordo tácito entre os Poderes. E é exatamente nesse ponto que se evidencia o primeiro problema: a fragilidade na relação entre Executivo e Legislativo. A independência entre os Poderes é essencial, mas não pode ser confundida com distanciamento ou imposição. Faltou articulação política consistente, sobrou ruído na comunicação. O resultado foi surpresa para alguns, mas é uma consequência de uma relação desgastada, onde confiança e capacidade de negociação falharam.

A rejeição vai além da simples recusa de um nome ela atinge diretamente a forma como o governo conduziu todo o processo. Ao barrar a indicação, o Congresso estabeleceu um limite inequívoco e deixou claro que não aceita mais ser mero espectador de decisões construídas de cima para baixo. Trata-se de um recado firme: escolhas unilaterais, orientadas mais por conveniência política do que por relação institucional sólida, estão encontrando uma resistência cada vez mais organizada e explícita.

Outro ponto sensível é a aproximação entre o Executivo e o Judiciário. A relação entre os Poderes deve existir, mas dentro de limites bem definidos. Quando o Supremo Tribunal Federal passa a ser percebido como próximo demais de quem governa, o problema deixa de ser apenas institucional e passa a afetar a confiança pública. A credibilidade da Corte depende, em grande parte, da sua imagem de imparcialidade. E, em democracia, a simples suspeita já é suficiente para corroer essa confiança.

Além disso, o episódio expõe um vício recorrente na política brasileira: a indicação de nomes com base em relações pessoais ou afinidades políticas. Não é um problema exclusivo deste governo, FHC (Gilmar Mendes) e Jair Bolsonaro (André Mendonça e Nunes Marques) também adotaram práticas semelhantes. Em contextos distintos, repete-se o mesmo padrão: a priorização de vínculos em detrimento de critérios estritamente técnicos. Isso enfraquece a legitimidade das escolhas e alimenta a percepção de que o STF pode ser influenciado por interesses de ocasião algo incompatível com seu papel constitucional.

O que se viu, portanto, não foi um fato isolado, mas o acúmulo de falhas: articulação política insuficiente, leitura equivocada do Congresso e insistência em práticas que tensionam o equilíbrio entre os Poderes. A consequência imediata é clara: desgaste político e redução da margem de negociação do Executivo.

Por outro lado, o episódio também revela um aspecto relevante: o funcionamento dos freios institucionais. Ainda que sob tensão, as instituições demonstraram capacidade de e imposição de limites. Isso não resolve o problema de fundo, mas evidencia que o sistema democrático continua operando.

A principal lição, contudo, é mais profunda e incômoda. A democracia brasileira segue sendo testada não apenas por crises pontuais, mas por práticas recorrentes que confundem o público com o privado e o institucional com o pessoal. Enquanto essa lógica persistir, novos episódios como este deixarão de ser exceção e passarão a ser sintoma de um problema estrutural que o país ainda não conseguiu superar.

Por Oscar Mariano
Publicitário, Coaching e Especialista em Ciência Política

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